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Wednesday, May 28, 2008

They can’t get no satisfaction

O rock não está morto. Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts muito menos. Essa é a sensação que o documentário sobre a banda Rolling Stones, Shine a light, a nova obra-prima do diretor norte-americano Martin Scorsese, transmite. Como o próprio título sugere, Scorsese enfoca o brilhantismo desses artistas sessentões por meio de artefícios plásticos de iluminação e fotografia, oferecendo um tributo à banda e aos fãs.

Quem espera um documentário clássico, forrado de entrevistas, depoimentos reveladores e história completa da banda, pode se decepcionar. Em Shine a light o diretor optou por retratar os Stones mostrando o que fazem de melhor: apresentar-se ao público. Em um pequeno teatro – sob os protestos de Mick Jagger, acostumado a pular e dançar para platéias imensas –, os quatro fazem um show para um seleto grupo de pessoas, que inclui o casal Bill e Hillary Clinton, sob a direção, mais fotográfica que artística, de Scorsese.

Show à parte é o início do documentário, em branco-e-preto, que retrata a etapa de organização da apresentação, quando Martin tenta descobrir o repertório musical planejado pela banda, discute com Jagger detalhes da produção e mostra a dificuldade de se lidar com roqueiros detentores de tamanho sucesso, tão acostumados a conduzirem shows e entrevistas como desejam.

A partir daí fica difícil recostar na cadeira e ficar parado. A plástica sonora permite que o espectador se sinta parte da platéia do show. Os movimentos rápidos de câmera conseguem a proeza de acompanhar o irriquieto Jagger, de captar os olhares cúmplices entre os guitarristas Richards e Wood e a serenidade que beira a sisudez do baterista Charlie Watts. A luz polêmica, que quase torra os músicos, forma uma aura em torno deles, reiterando a sua magnitude no palco.

Alternadas às canções, aparecem cenas breves com trechos de entrevistas brilhantemente selecionados. Em vez de escolher um material que mostrasse a trajetória dos Stones, Scorsese prefere divertir a platéia com respostas irônicas que dialogam com a realidade atual da banda de forma engraçada. Como quando questionam a Mick Jagger, com mais ou menos 20 anos, se ele acha que a banda vai tocar muitos anos ainda. Jagger responde: “Mais um ano pelo menos.” E diz que se via, sim, no palco aos sessenta.

O filme é uma experiência catártica. Um show de vitalidade, energia, cumplicidade e amor à profissão e à arte. Mesmo não sendo senhores de idade tradicionais, os Stones transmitem aquela mesma sabedoria clássica de quem viveu muitos anos e domina a atividade que praticou a vida inteira. É bonito notar a sintonia perfeita da banda e a serenidade do quarteto. Melhor ainda é sentir o mais genuíno e contagiante espírito do rock’n’roll.

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