Site Meter

Tuesday, April 15, 2008

“Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais. As neuróticas reagem.”

Apreciar Nelson Rodrigues leva tempo. Há menos de uma década, lembro-me de não conseguir compreender o fascínio que as vulgaridades e o machismo das obras do dramaturgo despertavam – hoje me regozijo com elas.

Acabo de ler O casamento (antiga edição da Companhia das Letras), o primeiro livro escrito por Nelson Rodrigues para ser publicado como livro, e não em partes nos jornais. O foco da trama é a relação quase incestuosa de Sabino e Glorinha, pai e filha. Ele cheirava as fraldas sujas da caçula; ela sonha com os lábios femininos do pai e com os pés – objeto de despudor, de sujeira – sempre escondidos em meias grossas. Ela está às vésperas de seu casamento; ele descobre que o genro foi visto beijando outro homem. Em meio a isso, os personagens principais, bem como os secundários, revelam seus fetiches e compõem um emaranhado de falsas aparências e lascividade.

As histórias de Nelson Rodrigues muito me lembram as de Eça de Queiroz. Ambos, dispostos a desmascarar a alta sociedade burguesa, contam fatos chocantes que vão de encontro à moral e aos bons costumes. Nelson vai ainda além – escandaliza nossos pudores, provoca nosso costume de manter secretas (ou de revelar a poucos) as fantasias sexuais, cutuca a ferida mais profunda, nos faz sentir vergonha. E o melhor: consegue desenrolar a narrativa de forma simultaneamente dramática e cômica. Ao mesmo tempo em que o doutor Cascatinha, médico obeso que sofre a morte do filho, provoca pena, ele desencadeia o riso quando deseja ardentemente coçar as berebas da careca ou quando reclama, bêbado, da mulher que não tem bunda, em um país em que o melhor da mulher é a bunda.

Mais do que um romance delicioso, provocativo e irônico, esta é uma história que nos faz sentir tremendamente humanos.

Neste mês de abril, o Centro Cultural São Paulo dedica uma mostra a Nelson Rodrigues, com sessões de cinema, encenações de peças de teatro e debates. Esta semana, faz 30 anos que estreiou nas salas de cinema brasileiras a produção A dama do lotação. O blog do Fantástico disponibilizou a matéria feita pelo programa acerca do lançamento. Confira o vídeo.

É sempre interessante ouvir os comentário polêmicos do personagem ainda mais escandalizante que era Nelson Rodrigues em entrevistas, mas triste é a edição dos anos 1980: as vinhetas ocupam mais tempo que os próprios depoimentos do dramaturgo; pior é a seleção de fotos dessas vinhetas...

Labels: