Peça de teatro para encerrar o fim de semana
Embalados pelo famoso forró “Acorda Maria Bonita”, de Antônio dos Santos, um dos “cabras” de Lampião, os atores Marcos Palmeira e Adriana Esteves entram no palco informalmente. Meio dançando, meio montando o cenário, auxiliados pelos dois contra-regras coadjuvantes da peça, constroem um clima alegre, nordestino, ao passo que se estabelecem como Virgolino e Maria de Déa.
Instantes depois, apagam-se as luzes e dá-se início a Auto de angicos, peça em cartaz no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), dirigida por Amir Haddad com texto de Marcos Barbosa, que encerra temporada bem sucedida de pouco mais de dois meses no próximo domingo, 8 de junho. Assim que as luzes se acendem novamente, desta vez em tom arroxeado, vê-se Virgolino preocupado e, em seguida, pede que a mulher lhe faça café, como nos versos da música.
O texto resgata a última noite do casal imortalizado na cultura popular brasileira, Lampião e Maria Bonita. Na primeira metade da encenação, os personagens revelam seu universo íntimo de casal, estabelecendo discussões cíclicas um pouco cansativas. Na segunda metade, expõem o conflito principal: Virgolino tem um mau presságio quanto ao futuro dos dois. O texto bonito, permeado de momentos de amor, comicidade e brigas, bem interpretado por Palmeira e Esteves deixa uma sensação agradável de fim de domingo.
Haddad, um dos fundadores do Teatro Oficina e diretor de grupos alternativos na década de 1970, consagrou-se por seu ecletismo em conduzir tanto megaespetáculos quanto peças menores, tendo ganhado o Prêmio Shell por Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, em 1989, e o Prêmio Sharp, por O mercador de Veneza, de William Shakespeare, em 1996. Em Auto de angicos, mescla aspectos dos dois universos sem cair na incoerência: une atores globais de alta popularidade com produção singela, de poucos recursos. No tablado de madeira, vêem-se apenas objetos do casal. Destaque para os fios de náilon pendurados que circundam o palco, simulando a chuva da quase manhã. No encerramento, os fios são iluminados e compõem uma aura mágica.
Além de recuperar a lenda do casal cangaceiro, a peça resgata o idealismo e heroísmo de Lampião. Transmite a mensagem de que, mesmo por meio de ações criminosas, Virgolino ocupou a vida combatendo a injustiça social, e mais vale assim fazer que se posicionar de forma passiva diante da vida e dos horrores que acontecem. A lição é válida, mas, num país em que as pessoas mal têm cidadania para assistir a uma peça teatral, deixando celulares ligados e conversando, fica a sensação de que é praticamente utópico acreditar em transformações.
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