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Monday, June 23, 2008

Numa piscina com patos

Com a consolidação do tráfico de drogas, que relegou para segundo plano a venda ilegal de armas, a prática do jogo e a prostituição, a máfia italiana teve de se renovar. Incorporar a nova atividade significava continuar dominando os negócios ilegais tremendamente rentáveis nos Estados Unidos. Por outro lado, como as punições para o tráfico de drogas eram muito mais severas, a mudança implicava abrir mão dos fundamentos da filosofia do grupo, que pregava, acima de tudo, fidelidade aos parceiros do crime, garantindo uma grande rede de pessoas baseada na lealdade e na troca de favores.

Até aí, nada de novo. A trilogia de Francis Ford Coppola, os volumes I, II e III de Poderoso Chefão, em especial o terceiro filme, colocam esse conflito. Mas os rumos que essa situação toma são brilhantemente abordados na série Família Soprano (The Sopranos). Em vez de Nova York, o foco é New Jersey (a Osasco deles), em vez deMichael Corleone, há Tony Soprano, mas, da mesma forma, assiste-se à saga de um homem isolado pelo poder, rodeado por influências em que não pode confiar, que criticam suas atitudes pelas costas e cobiçam sua posição, e atormentado pelo drama da sucessão. Enquanto isso, a máfia tenta sobreviver aos tempos modernos, esquivando-se da justiça, que fecha o cerco cada vez mais, e confrontando-se com outros grupos de crime organizado. O que difere os dois cenários, na verdade, é sua complementariedade: Família Soprano retoma o fio da meada de Poderoso Chefão décadas depois.

Mal comecei a assistir o box da primeira temporada, mas posso dizer que fiquei embasbacada com a forma deliciosa como a série aborda a questão da sobrevivência da máfia em um plano e, em outro, as angústias de um homem no mundo contemporâneo – um mafioso que, além de ter de lidar com as dificuldades implicadas pelo poder e pela crise de valores da máfia, tem de se dedicar a um casamento quase fracassado, a uma mãe senil de temperamento difícil e a dois filhos, entre eles uma adolescente rebelde. O elo entre esses universos são as sessões de terapia de Soprano, que busca ajuda depois de ter alguns ataques de ansiedade.

Assim, a série se sustenta não só pela construção da realidade de um grupo criminoso que busca achar seu lugar na sociedade atual, mas pela ironia que circunda a figura de Tony Soprano: o chefe da máfia frio e inescrupuloso que se sente deprimido diante da crise de valores da sociedade pós-moderna e se sensibiliza com acontecimentos bucólicos, como o surgimento de uma família de patos, também perdidos nesta nova era, em sua piscina.

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